Sorriso maroto.

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O engano é tal, que afinal, nem sei se não estou a enganar a mim mesmo.

O engano é tal que afinal, nem sei se não estou me enganando.


SORRISO MAROTO.

Às vezes estou andando por aqui ou por ali e me surpreendo com um sorriso enfiado em meu rosto.

Você sabe aquele sorriso maroto? Pois bem, vou contar tudo nos tin-tins.

Quando vejo estou com o rosto parado, sem inclinar nem nada. Os olhos, as sobrancelhas: quietas, sem dizer nada. Tipo túmulo. Mas sem perder o contato visual com a pessoa à frente.

Portanto, não tem essa de mostrar dentes, não. Só os lábios, grudados um no outro. Relaxadinhos, bem normais. O rosto no silêncio. Portanto, não existe nenhum traço de alegria.

Está quase pronto. Agora só falta dar um meio-sorriso. Só um lado da boca apresenta uma suave contração, mansa e delicada.

Foto de detalhe quadro esculpido em madeira. Autor Gilvan Samico, obra denominada Rosto.
Detalhe da adaptação tátil da obra Rosto, de Gilvan Samico, exposto no FAMA em fevereiro de 2022.

Consigo montar um sorriso desses tão bem feito que, no final, não é só quem está olhando que fica intrigado. Até eu mesmo fico em dúvida. Não sei se estou de bem com a vida. Sabe, aquela felicidade de estar vivo. Uma gratidão por estar tudo certo. Algo assim.

Ou, por outro lado, se estou mesmo é cheio da falsidade desse mundo.

Áudio: Trabalhos técnicos de Ricardo Lima – RÁDIO UEL.

Acesse outro post da Coluna O COTIDIANO.

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