Lugares de campos tristes.

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Entendo que não deseja minhas moedas. O que quer é um cadinho de mim.


LUGARES DE CAMPOS TRISTES.

Esse semáforo de nem um minuto, míseros quarenta segundos, está acabando com o meu dia. Mas nem tenho como evitá-lo.

A janela do carro emoldura o casal de pedintes. Porém eu não me permito abaixar o vidro em hipótese alguma. Pois somente este vidro me protege daquela indigência.

Mantenho a barreira não é por medo. É nojo. Como fosse algo contagioso. Até para escarar, precisaria abrir a janela.

Ninguém poderia ter licença para fazer nojo `as pessoas de bem.
Pessoas em situação de rua.

Esses miseráveis não têm vida. O que eles têm é um dia após o outro. Cada dia é um dia, é uma vida toda, na incerteza de outro dia.

Antes era só o rosnar da mão estendida. Agora descobriram o grito do pedaço de papelão surrado onde taxaram um FOME. Esse substantivo que antes de tudo, me acusa.

Afinal eu passo a acelerar, mesmo sem sair do lugar, embora a cada pressão no acelerador, seja um pão que se vai pelo escapamento. Como evitar? Além do mais quero sair depressa, abandonar esses abandonados à sua escassez. Eu, no entanto, preciso fugir é das minhas misérias.

Mas é o devagar de uma procissão que não atende minha pressa, não ouve minha prece de sufocação.

Então anseio deixar pra trás o inferno feio desse mundo e buscar o refúgio no indevassável muro do meu condomínio.

Certamente a leitura facial na entrada do condomínio, conseguirá ler a inquietação do meu espírito.

Por outro lado, quando for aberta a cancela, poderei lavar os olhos na exuberância dos gramados bem cuidados, das flores em flor e cor. Pois urge retirar da mente essa farpa de miséria, a lasca da culpa.

Mas a imagem daquelas quase pessoas, essa não me arranco dos miolos. Ela então teima em vagar dentro de mim. A crueldade do cartaz berrando FOME. Essa gana que o papel ostenta é uma gula de quê? Não é só comida, é tudo o mais que cabe na vida de um cidadão.

Nem esfregar o couro na água morna sob o chuveiro me é suficiente para lavar esse incômodo.

Então me obrigo a tirar o pensamento do paraíso entre muros e retorná-lo àquele lugar de campos tristes, de intervalo de semáforos. Eles serão mesmo sinais de transito ou são só instrumentos que impedem a minha vida de fluir ordeira e regular?

Libero o esquálido espaço da janela do carro, então recebo o bafo quente da tarde e permito que misturemos nossos mundos.

Estendo uma nota miúda. Os pés nus esfregam-se pelo asfalto e trazem aquela quase senhora para estender seus dedos tatuados de sujidades até o recurso que lhe ofereço.

Então ela me despeja nas faces um amplo sorriso de dentes poucos e dá voo a um “Deus abençoe a sua bondade“.

Entendo que não deseja minhas moedas, o que ela quer é um cadinho de mim.

Então não é só comida que lhe falta. Pois foi muita alegria para tão pouco dinheiro. Antes é esperança que levou das minha mãos. Aquele trocado reforçou a crença de que ela possa ir pegando um pouco do meu viver para enfiar no bolso do seu vestido.

Mais que dinheiro, ela quer é um naco do que eu tenho. Por isso não escreveram comida no improvisado cartaz; mas fome. Fome do que nós temos e eles não têm.

Sua boca saliva por um gomo de DIGNIDADE. É isso que vai encher não só o seu estômago, mas todo o seu ser.

Dignidade: devemos também isso aos habitantes dos semáforos.

Áudio: Trabalhos técnicos de Ricardo Lima – RÁDIO UEL.

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